Retratado de muitas formas, Napoleão já foi Cristo e o Diabo. O Imperador também foi tema do debate de abril da RHBN, que revelou a posição na qual ele perdeu a guerra.
Adriano Belisário
Em plena véspera de feriadão, dezenas de pessoas lotaram o auditório da Biblioteca Nacional no dia 21 de abril para conhecerem mais a fundo um personagem já bastante famoso na História. “Tem muitas pessoas com ódio e inveja, mas ele não foi um homem comum. Foi um gênio!”, exclamou um espectador exaltado.
Garoto-propaganda de maionese, baixinho careca, nome para peça de fuscas e galã conquistador. Napoleão já foi retratado de muitas maneiras. Em meio a esta diversidade, a historiadora da USP Raquel Stoiani apresentou imagens do Imperador, discutindo o contexto político que influenciou as representações. Já Lúcia Maria Bastos, pesquisadora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, tratou das biografias escritas sobre Bonaparte, no debate de abril do projeto Biblioteca Fazendo História.
Stoiani contou que seu interesse em pesquisar a iconografia de Napoleão surgiu quando ela conheceu “General Bonaparte na Ponte de Arcole”, quadro do artista francês Antoine-Jean Gros que retrata o comandante de modo pouco usual. “Não conseguia imaginar como esse rapaz esbelto e cheio de energia fosse também aquele retratador por Jacques-Louis David”, disse.
A imagem de Napoleão em seu gabinete com a mão dentro do casaco se tornou um paradigma para a representação de outros grandes estadistas, como Stálin e D. Pedro II, que possuem quadros com “poses napoleônicas”. “Há quem diga que ele sofria de úlceras e a mão poderia estar como que aliviando as dores, mas não existe nada categórico afirmando isto”, explica a historiadora.
Como não poderia deixar de ser, uma das questões levantadas pela plateia para as especialistas tentava descobrir qual foi afinal a posição em que Napoleão perdeu a guerra. Raquel Stoaini apresentou duas anedotas sobre o assunto que são conhecidas na História. “A primeira conta que muitos soldados franceses morreram congelados e caiam duros com o bumbum para cima. Já outra diz que Napoleão teve um desarranjo intestinal durante a batalha de Waterloo”, disse. Ao que Lúcia relembrou de um episódio semelhante em nossa história: “Também dizem que D. Pedro também teve um problema parecido e, por isso, foi ao rio Ipiranga. Será que ele estava imitando Napoleão até nisso?”, brincou.
Outro quadro de Gros destacado por Stoaini foi o "Bonaparte visitando as vítimas da peste de Jaffa". A obra retrata um episódio polêmico da vida de Napoleão. Em 1799, o estrategista ordenou a morte de milhares de soldados otomanos que haviam se rendido em troca da garantia de continuarem vivos. O massacre durou três dias e se tornou uma das maiores manchas na biografia de Bonaparte.
Cinco anos depois, Napoleão solicitou a Gros um quadro sobre sua passagem por Jaffa. Mas o que se vê nele está longe de ser o general impiedoso descrito nos livros de História. “Gros se inspirou nas pinturas renascentistas de Lázaro e mostra Napoleão como um Jesus Cristo. Ele aparece tocando vítimas da peste, enquanto um de seus oficiais parece recomendar que ele se afaste. Depois de anos de revolução, Napoleão aparece como o imperador taumaturgo. Não é mais o homem que mata, é aquele que toca, que vem curar”, analisou Stoiani.
Já no Brasil, a imagem de Napoleão no Brasil não era nada cristã. Segundo Maria Bastos, existem cerca de cinco mil escritos da época que circularam no Rio de Janeiro mencionando o Imperador. Nas críticas, havia de tudo. “Dizia-se que ele era demônio vomitado pelo inferno, um castigo de Deus contras os homens por estarem se afastando da Igreja Católica. Existiam até receitas para se fazer Napoleão com ingredientes como unha de tigre, calda de pavão e etc”, relata a historiadora.
Mesmo no caso de obras sob encomenda, nem sempre o resultado era o ideal. A escultura de Napoleão como “Marte Pacificador”, do artista italiano Antonio Canova, por exemplo, não agradou o Imperador, que rejeitou a obra depois de pronta. A proposta por trás do título da obra é clara: demonstrar Bonaparte como um estrategista que usa a guerra para instaurar a paz, uma retórica viva até hoje entre as grandes potências.
Canova levou a sério a inspiração em Marte e esculpiu Napoleão nu, quase como um deus grego. “Bonaparte ficou horrorizado com aquela idealização física. Depois falam que Photoshop é coisa de hoje em dia. Napoleão já tinha uma barriguinha e não tinha nada daquele porte da estátua”, comentou Raquel Stoaini.
O que não se sabe é se isto teria sido intencional, para “alfinetar” o Imperador, uma vez que Canova se ressentia pela espoliação artística de Napoleão durante a conquista da Itália. Tanto que, após a queda do militar, o artista foi encarregado pelo Papa de repatriar as obras. “Napoleão como Marte Pacificador” teve um destino inusitado: foi vendida ao governo inglês. Por sua vez, a Rainha a doou para o Duque de Wellington, que derrotou Bonaparte em Waterloo. Assim, a estátua de Napoleão como o deus da guerra foi parar na porta da casa de seu algoz.
O contraponto na visão brasileira da época sobre Bonaparte ficou por conta de Caetano Lopes de Moura, baiano que serviu no exército do Imperador e dizia ter dois ídolos: D. Pedro II e Napoleão. A admiração foi tanta que Caetano escreveu uma biografia sobre Bonaparte. Maria Luísa de Áustria, tia do último Imperador brasileiro, também era segunda esposa de Napoleão. E, quando Caetano morreu, D. Pedro II ordenou a construção de um túmulo em sua homenagem em Paris.
Se a figura de Napoleão como estadista é ultrapassada, o mesmo não se pode dizer do Imperador francês como legislador. Segundo Stoaini, há uma forte influência dos ideais napoleônicos em nosso Código Civil, por exemplo. Prova irrefutável de que Napoleão foi definitivamente deglutido no caldo cultura e político brasileiro.
Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional



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