terça-feira, 14 de maio de 2013

Comunico, logo existo

Primeiro dicionário de sinais publicado no Brasil buscava popularizar os gestos utilizados pelos surdos e facilitar sua comunicação com ouvintes




No Brasil, o primeiro passo em direção a uma política de educação para surdos ocorreu com a fundação, no Rio de Janeiro, do Imperial Instituto de Surdos-mudos (hoje Ines), em 1857. Quase 20 anos depois, Flausino da Gama, ex-aluno do Instituto que atuava como “repetidor de lições”, publica a Iconographia dos Signaes dos Surdos-mudos (1875). Guardado na Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, o livro é o primeiro dicionário de sinais publicado no país.
O Instituto dos Surdos foi criado pelo professor surdo Edward Huet (1822-1882), sob os auspícios de D. Pedro II. Contava com professores formados na França, como o próprio Huet, e recebia alunos de diversas regiões do Brasil. Na introdução daIconographia, o diretor do Instituto à época, Tobias Leite (1827-1896), traz informações importantes sobre a publicação. Ao que parece, a obra nasce de um esforço editorial coletivo. Flausino da Gama teria manifestado interesse em publicar a versão brasileira de um livro francês do surdo Pierre Pélissier (1814-1863),encontrado na biblioteca do Instituto.
No entanto, apesar de ser um bom desenhista, Flausino não dominava a técnica da litografia, naquela época o recurso mais comum para ilustrar impressos. Seria muito caro contratar um profissional para fazer as ilustrações e pagar os serviços de impressão da obra. Mas Flausino teve sorte: o litógrafo holandês Eduard Rensburg, dono da Oficina Litográfica de Heaton & Rensburg, que imprimiu obras como O Brasil pitoresco e monumental, de Pieter Bertichen, e A Lanterna Mágica, primeiro jornal de caricaturas do Brasil, ofereceu-se para ensinar a técnica ao aluno em sua oficina para que pudesse levar adiante o projeto. Terminado o trabalho, “em poucos dias” a obra estava pronta e editada. Não se sabe se Rensburg também patrocinou a impressão, mas a folha de rosto indica que o livro saiu dos prelos da Typographia Universal de Laemmert, uma das mais importantes da Corte.
A obra foi pioneira em valorizar a linguagem gestual-visual na comunicação entre surdos e ouvintes, assim como a capacitação dos ouvintes para se comunicarem com os surdos em sua própria linguagem. A iniciativa rompia com o modelo de comunicação oralizada, amplamente assumido na Europa como mais adequado para a educação e a integração social dos surdos. Segundo Tobias Leite, “os pais, os professores primários, e todos os que se interessarem por esses infelizes ficarão habilitados para os entender e se fazerem entender”.


Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional. Edição de Maio de 2013. nº 92. Ano 8.

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