Primeiro dicionário de sinais publicado no Brasil buscava popularizar os
gestos utilizados pelos surdos e facilitar sua comunicação com ouvintes
No Brasil, o primeiro passo em direção a uma política de
educação para surdos ocorreu com a fundação, no Rio de Janeiro, do Imperial
Instituto de Surdos-mudos (hoje Ines), em 1857. Quase 20 anos depois, Flausino
da Gama, ex-aluno do Instituto que atuava como “repetidor de lições”, publica a Iconographia
dos Signaes dos Surdos-mudos (1875).
Guardado na Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, o livro é o primeiro
dicionário de sinais publicado no país.
O Instituto dos Surdos
foi criado pelo professor surdo Edward Huet (1822-1882), sob os auspícios de D.
Pedro II. Contava com professores formados na França, como o próprio Huet, e
recebia alunos de diversas regiões do Brasil. Na introdução daIconographia, o diretor do Instituto à época,
Tobias Leite (1827-1896), traz informações importantes sobre a publicação. Ao
que parece, a obra nasce de um esforço editorial coletivo. Flausino da Gama
teria manifestado interesse em publicar a versão brasileira de um livro francês
do surdo Pierre Pélissier (1814-1863),encontrado na biblioteca do Instituto.
No entanto, apesar de
ser um bom desenhista, Flausino não dominava a técnica da litografia, naquela
época o recurso mais comum para ilustrar impressos. Seria muito caro contratar
um profissional para fazer as ilustrações e pagar os serviços de impressão da
obra. Mas Flausino teve sorte: o litógrafo holandês Eduard Rensburg, dono da
Oficina Litográfica de Heaton & Rensburg, que imprimiu obras como O Brasil
pitoresco e monumental, de
Pieter Bertichen, e A Lanterna Mágica, primeiro jornal de
caricaturas do Brasil, ofereceu-se para ensinar a técnica ao aluno em sua
oficina para que pudesse levar adiante o projeto. Terminado o trabalho, “em
poucos dias” a obra estava pronta e editada. Não se sabe se Rensburg também
patrocinou a impressão, mas a folha de rosto indica que o livro saiu dos prelos
da Typographia Universal de Laemmert, uma das mais importantes da Corte.
A obra foi pioneira
em valorizar a linguagem gestual-visual na comunicação entre surdos e ouvintes,
assim como a capacitação dos ouvintes para se comunicarem com os surdos em sua
própria linguagem. A iniciativa rompia com o modelo de comunicação oralizada,
amplamente assumido na Europa como mais adequado para a educação e a integração
social dos surdos. Segundo Tobias Leite, “os pais, os professores primários, e
todos os que se interessarem por esses infelizes ficarão habilitados para os
entender e se fazerem entender”.Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional. Edição de Maio de 2013. nº 92. Ano 8.


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