segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A gente da Baixada Fluminense - Sítio Arqueológicos no Rio

Escavações para a construção do Arco Rodoviário no Rio descobrem cerca de 40 sítios arqueológicos que apontam populações de até 6 mil anos na região.





As escavações para a construção do Arco Rodoviário, que ligará a Rio-Bahia à Rio-Santos em uma estrada em volta da Baía de Guanabara, está tendo efeitos colaterais positivos. Além de, futuramente, desafogar o trânsito na capital e, segundo o governo, incrementar a economia do estado, já foram descobertos cerca de 40 sítios arqueológicos que contam um pouco da origem do povoamento da Baixada Fluminense.

A região, que sempre foi uma espécie de celeiro do Rio e teve sua história diretamente ligada à da capital do estado, agora pode se vangloriar de saber que há pelo menos 6 mil anos os sambaqueiros já viviam por lá. Em seguida, foi a vez dos índios, europeus, africanos e, em seguida, a mistura de todos esses elementos que veio a dar no que chamamos de brasileiro. 







Jandira conta que também há a possibilidade de se fazer um parque na região do Areal, onde se acredita ter existido o Porto do Barriga, que nunca tinha sido localizado.




“Esses sítios mostram como se formou a gente de Baixada.”

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional

A arqueóloga também se mostrou preocupada em mostrar às populações afetadas com as obras do arco um pouco do que foi descoberto com todas as escavações. Para isso, ela criou um programa de educação patrimonial que, entre agosto e outubro de 2010, fez exposições de arqueologia em cinco municípios da Baixada, e, segundo ela, atingiu cerca de 9,8 mil alunos da região.

“A história tem registro desse lugar, um dos pequenos portos do Rio Iguaçu. Ele era usado como apoio para quem ia para Minas Gerais, com recepção de material. Encontramos formas de pão-de-açúcar [onde se purgava o açúcar]. Há vestígios de um trapiche ali.”

“Todo acervo está no Instituto de Arqueologia Brasileira. E o sambaqui de São Bento deve ser aberto ao público. Estão captando recursos para construir um museu naquela área.”

“Isso feito, o Iphan sugeriu um estudo mais profundo, um levantamento com prospecção, feito em 2009, com varredura nos 72 quilômetros do traçado da estrada”, conta. “Na sequência, na terceira etapa, foi feito o resgate em si, que tem indicação do Iphan, das áreas que têm risco, por conta da passagem da malha viária”, lembra, dizendo que o número de sítios pode ainda subir por conta da continuação das obras. 

Ela contou que o processo de reconhecimento desses sítios começou em 2008, quando se iniciaram os Estudos de Impacto Ambiental da rodovia. Em seguida, explica a arqueóloga, foi feito um levantamento da ocupação da Baixada porque apareceram indícios nos primeiros testes e porque havia relatos mostrando que a região havia sido ocupada. 

“Em Japeri [foto à esquerda], encontramos uma urna tupi-guarani. Encontramos em todos os sítios, vestígios de colonização europeia, com louças dos séculos XVI ao XIX e até um relógio de sol, com numerais em algarismos romanos. Também encontramos cerâmica indígena e cabocla e cachimbos, muitos cachimbos”, conta a arqueóloga Jandira Neto, que comanda as pesquisas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira, cuja sede fica em Belford Roxo, também na Baixada.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A primeira presidenta

Com a chegada de Dilma Rousseff ao poder, cenário de dominação masculina começa a mudar; Historiador que pesquisou princesa Isabel compara trajetórias e vê coincidências.


Dilma Rousseff ao receber a faixa presidencia



A chegada ao poder de Dilma Rousseff tem tido diversas interpretações por parte de jornalistas, colunistas, articulistas e outros “istas”, mas, talvez, a mais citada seja a questão de gênero: ela é a primeira presidenta eleita para assumir o cargo mais importante do país.

A diretora do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina (Cedhal) e ex-presidente da Associação Nacional de História (Anpuh) e do Museu Paulista da USP, Eni de Mesquita Samara, em entrevista publicada na edição 64 da “Revista de História da Biblioteca Nacional”, que chega agora em janeiro de 2011 às bancas do país, afirmou que ficou muito feliz com a vitória de uma mulher na corrida presidencial.


“As mulheres sempre ocuparam postos secundários. Isso é verdade mesmo nos altos escalões. Sempre foram os homens que tiveram as posições de frente. E eu acho que, com a presença da Dilma, esse cenário de dominação masculina está começando a mudar um pouco. Na verdade, não é o gênero que importa, mas a qualificação da pessoa.”

Ela até lembrou que não é de hoje que as mulheres são quase metade das chefes de família, como acontecia desde o período colonial.

“O maior grupo de mulheres trabalhando e chefiando famílias foi encontrado em Vila Rica de Ouro Preto, onde 45% das mulheres eram chefes de domicílio. O percentual de São Paulo era de 30%”, diz ela. 

Antes de Dilma, princesa e rainhas 


Entretanto, Dilma não é a primeira mulher a comandar o Brasil. Antes dela, Leopoldina, Dona Maria I, e a princesa Isabel, também assumiram o posto. Isabel foi a que tomou o maior número de atitudes que entraram para a História, como ter assinado a Lei Áurea, que acabou com a escravidão no país. O historiador Roderick Barman, que estudou a filha de D. Pedro II, consegue ver coincidências entre as trajetórias de Isabel e Dilma.

“D. Isabel exerceu a regência e Dilma a presidência graças à intervenção (muito diferentes entre si) de dois homens", escreveu por email. "Ele estava disposto a deixá-la agir como regente (e claramente não esperava que ela tomasse um curso independente das ações ou adotasse um estilo de governo diferente do dele).” E continua: “Eu acho que Lula pode ter imposto Dilma como a sua candidata porque ele acreditava que ela não adotaria um curso independente das ações ou adotasse um estilo de governo diferente do que ele estabelecera. Se ela vai ou não confirmar essas expectativas, vocês estão melhor localizados para saber que eu, que vivo aqui em Vancouver (longe da pátria amada).”

Ele lembra que a princesa Isabel “não tinha nem o interesse nem a capacidade para os assuntos públicos ou para a política”, aparecendo realmente somente no episódio da abolição da escravidão, e sendo associada a assuntos ligados a moral e a religião.
[À direita, a princesa Isabel]

“Ela assinou a Lei do Ventre Livre em 1871, mas seu papel nessa primeira luta contra a escravidão não foi mais que nominal”, escreve ele. “Dilma pode aprender com D. Isabel é que para ser eficaz como a chefe de estado ela deve se engajar no dia a dia com as pessoas comuns, sendo vista como ‘simpática’ (o que D. Isabel nunca foi ou tentou ser). Ela deve evitar ser identificada como um zelote ideológica, como aconteceu com D. Isabel, no que diz respeito a religião católica.”

‘Objetos sexuais’
Barman não vê o Brasil como uma “sociedade declaradamente machista”, mas as mulheres, em sua opinião, sempre foram tratadas como “objetos sexuais”.

“Até recentemente, uma mulher inteligente e hábil em busca de uma carreira independente chamaria a atenção, mas ela nunca seria encarada como confiável. No máximo, o mais longe que ela poderia chegar seria uma posição de segundo escalão.”

Ele acredita que a situação mudou por conta do movimento feminista nos EUA e da participação de mulheres (Dilma incluída) nas campanhas pelo fim do regime militar.

“A eleição de Dilma para ser a presidente nos próximos quatro anos e o fato de Dilma ter indicado diversas (mas não tantas quanto ela prometera) ministras terá um impacto importante em fazer com que os brasileiros, homens e mulheres, aceitem sem pensar as mulheres como líderes naturais.”

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional

Inventários decifram a vida no século XIX


Pesquisadores de todo o Brasil e do exterior já podem ter acesso a uma vasta documentação sobre a vida material da Amazônia e, mais especialmente, de Belém, em meados do século XIX. É que o Centro de Memória da Amazônia (CMA), órgão vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA), está disponibilizando, na sua página eletrônica, centenas de inventários de pessoas que viveram e morreram na Belém desse período. Os documentos foram cuidadosamente recolhidos do vasto acervo repassado ao CMA por parte do Tribunal de Justiça do Estado (TJE-PA) – a parceria foi estabelecida na forma de um convênio entre a UFPA e o TJE-PA – e, agora, estão disponíveis na internet. Em breve, assim que a reforma do prédio do CMA for concluída, provavelmente entre março e abril de 2011, eles também poderão ser manuseados na sede da entidade.
De acordo com o coordenador do CMA e professor do curso de História da UFPA, Otaviano Vieira, os inventários agora disponibilizados no formato digital datam do século XIX, mais precisamente do período compreendido entre os anos de 1810 e 1890, e representam importantes fontes de pesquisa não só para os historiadores, como também para qualquer pessoa que se interesse pela vida material, conforto e hábitos de consumo ao longo do tempo.
“O inventário é interessante porque representa uma espécie de encontro entre o indivíduo e a morte. Em geral, quando alguém fazia um inventário, era porque estava doente ou pensando no momento de morrer.
Era, então, como se ele estivesse querendo fazer um ajuste de contas com a sua própria consciência. Nesse sentido, os documentos mostram um pouco da tradição religiosa da época e da própria cultura material da Amazônia - em especial, de Belém, no século XIX. Era bastante comum, por exemplo, homens confessarem que tinham filhos ilegítimos, isto é, fora do casamento. É uma forma de você entrar na vida material dessas pessoas. Vou dar uma ideia: por exemplo, se eu morresse hoje, no meu inventário não constariam 30 garfos ou 30 colheres, mas, até a primeira metade do século XIX, esses itens apareciam nos inventários. E sabe por quê? Porque um garfo e uma colher nesse período eram significativos, eram caros.
Então, é possível observar, através disso, a própria noção de consumo e de conforto que estão dentro desses inventários”, explica.
Em muitos casos, segundo Vieira, os inventários trazem anexados os testamentos, o que torna a visão sobre aquelas realidades ainda mais completa. “O inventário, fundamentalmente, é o levantamento dos bens que a pessoa possuía e do valor de cada um deles. Normalmente trazia também uma pré-divisão desses bens, que só era concretizada, de fato, pelo testamento. Ou seja, era no testamento que a pessoa deixava expresso para quem queria deixar o quê. Os testamentos, em geral, têm um caráter mais emotivo, quase como cartas mesmo. Em suma, estamos falando de uma documentação fantástica”, avalia. 

Fonte: Diário do Pará

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Nota:

Em Cataguases, o Centro de Documentação Histórica, possui vasta documentação histórica inclusive com inventários e testamentos de personalidades da cidade de Cataguases como o Cel. João Duarte e Dr. Norberto Custódio Ferreira.
Esses documentos não estão digitalizados, mas estão disponíveis para consulta de qualquer pessoa que queira consultá-los no próprio Centro de Documentação Histórica.

Local: Centro de Documentação Histórica do Instituto Francisca de Souza Peixoto
Praça Manuel Ignácio Peixoto, Centro, Cataguases/MG.